Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

3.4 Outdoors e cartazes

Os outdoors são cartazes de grande dimensão.
Em quase tudo o resto são semelhantes aos outros cartazes: uma mensagem simples com um único tema.

Os cartazes e os outdoors são eficazes para fixar a imagem do líder/candidato e/ou o símbolo da organização política.

«A grande alavanca são os outdoors. Foi isso que usámos em Lisboa. Na publicidade normal, outdoor é um apoio da televisão, onde uso o outdoor para dar apoio à publicidade que está a passar na televisão e na rádio. Na política o outdoor determina os caminhos por onde quero seguir. Essa é a diferença básica» - Einhart Jácome da Paz; Meios & Publicidade; 05/02/05,

Outro objectivo é uma boa articulação entre a imagem e o texto - não faz sentido “acordar” às 4h conforme sugeriu o PS de Cascais nas autárquicas de 2005. Aqui pode encontrar muitos outros casos de amadorismo e completas aberrações de outdoors. Dinheiro deitado ao lixo, essencialmente em eleições autárquicas.

 

Porque vive da memória visual, o cartaz é apelativo. A mensagem é simples, com poucas palavras e uma mancha leve e facilmente perceptível.

“Um cartaz moderno será uma imagem, em geral colorida, contendo normalmente um único tema e acompanhado de um texto condutor, que raramente ultrapassa dez ou vinte palavras, portador de um único argumento. É feito para ser colado e exposto à visão do transeunte (…) com legibilidade a grande distância em visão rápida. (…) O fenómeno essencial da percepção do cartaz é a sua repetição.” – Abraham Moles, O Cartaz.

A mensagem que o PS pretendeu transmitir nas legislativas de 1999 centrava-se em dois elementos: o país (a cor da bandeira) está bem (“ Portugal em boas mãos”), por isso mesmo, não há que apostar na mudança.
Nesta fase, da pré-campanha, o PCP jogou com a expressão “boas mãos” e lançou um outro outdoor que pretendia responder a esta mensagem e ao objectivo do PS de obter a maioria absoluta.

Muitas vezes, através destes cartazes são perceptíveis os elementos essenciais de cada candidatura e o “diálogo” que é estabelecido entre elas.
Os cartazes são igualmente um bom instrumento para divulgação da imagem do líder político. Este é um dos motivos porque quase todos os partidos – mesmo os que, aparentemente, recusam a personalização, como o PCP e o PCTP/MRPP – recorrem aos
cartazes para a divulgação da imagem dos respectivos candidatos às eleições legislativas.
Já em 1995, Vitor Dias, dirigente do PCP, admitiu que foi preciso promover, nos cartazes e outdoors, a figura de Carlos Carvalhas, devido à tendência inelutável para a personalização que a vida política sofreu, por culpa dos media e também da opinião pública.
“Mas é uma personalização diferente da que fazem os outros partidos, explica-nos Vítor Dias. «O cartaz não diz nada sobre o líder, nem que é um homem de palavra, nem que vai fazer isso ou aquilo. É apenas o slogan da força política – Vamos dar a volta a isto – com a imagem do homem que é o seu principal representante”. Público 11/09/95

 

A personalização dos outdoors da CDU começou de forma sistemática em 1999 e foi repetida nas legislativas de 2002 e de 2005, com Jerónimo de Sousa.

A utilização eficaz do cartaz implica uma articulação com os outros instrumentos de campanha e com a estratégia global que está a ser seguida. Por exemplo, nas legislativas de 1995, segundo afirmou ao Público Edson Athaíde, os cartazes do PS variaram de acordo com as três fases da campanha.
No início, depois de Cavaco Silva anunciar que ia abandonar a liderança do PSD, foi projectada a imagem de António Guterres.

 

Foram os cartazes com a imagem do líder do PS e, entre outros, os lemas “O homem que sabe o que quer para o país” e “ Os portugueses não são um negócio. São pessoas.”
A segunda fase passou pelo apelo a uma nova maioria e os cartazes recorreram a pessoas anónimas, o símbolo do coração e a frase “A nova maioria é nossa”.
A última fase é a síntese. A imagem é de novo a de António Guterres e a frase passou a ser “Razão e coração”.


Nas legislativas de 1995 o PP também difundiu a sua mensagem com recurso aos cartazes em três fases: inicialmente deu eco às propostas do partido mas de uma forma crítica em relação ao outros partidos – foi o caso dos dois tachos com a frase “velha maioria, nova maioria”, numa referência ao PSD e ao PS. A segunda fase apontava já as propostas de uma forma positiva. A terceira fase é uma simbiose entre os problemas e as propostas apresentadas pelo PP e com a imagem de Manuel Monteiro.

Já em 1999 a estratégia do PS passou pela utilização quase exclusiva da imagem de António Guterres. Se em 1995 o PS valorizou uma mensagem que apostava nas questões sociais – rendimento mínimo, aposta na educação…-, em 1999 não foi feita qualquer proposta concreta.

Tudo se baseava na boa popularidade de António Guterres O primeiro cartaz teve lugar na pré-campanha.
Próximo da data das eleições surgiu o segundo cartaz, com apelo ao voto e, quase em cima do acto eleitoral foi colada a palavra “vote” e o punho, o símbolo do PS que aparece no boletim de voto, na parte inferior direita dos outdoors.
Na noite do dia das eleições surgiu mais um cartaz que fechou o ciclo..

A colocação dos outdoors e cartazes faz-se junto de locais de grande movimento, preferencialmente dispostos numa posição perpendicular em relação às vias de comunicação.

É um meio que, segundo os especialistas, tem grande eficácia. Para Edson Athayde, em declarações ao Expresso de 24-07-99, «sem ser o principal suporte de campanha, o outdoor tem, em Portugal, muito peso».
No mesmo artigo, Jorge Alves da Silva, que trabalhou para o PP, foi mais longe ao considerar «os outdoors essenciais para fazer marcação na cabeça dos eleitores», e sublinhava que «ninguém vota em pobres, é preciso mostrar sinais exteriores de comunicação». Curiosamente, mais tarde, quando do debate do financiamento dos partidos e das campanhas, o líder do CDS-PP afirmou que “os outdoors e pendões são dois meios inúteis, porque «o custo é infinitamente superior ao efeito»” – Público 25/11/99. Paulo Portas defendeu mesmo “a celebração de um contrato entre os partidos para que não seja utilizada publicidade comercial e pendões nas campanhas. «O elevado custo das campanhas de publicidade, onde se vendem ideias como quem vende um shampoo, através de cartazes é caríssimos» e a mania dos pendões que «sujam as vilas, aldeias e cidades de Portugal são gastos desnecessários», considerou Portas”- Lusa 23/11/99..

Devido aos elevados custos, são poucos os partidos ou candidaturas que podem recorrer aos outdoors, nomeadamente em contra-ofensivas. José Manuel Coelho, nas preidenciais de 2011 teve de recorrer à imginação para colmatar a ausência de recursos financeiros.
Numa notícia do Público de 25 Novembro de 1999, é dito que o PP, na campanha para as legislativas de 1999, gastou cem mil contos. “Desses cem mil contos que o CDS-PP diz ter gasto, mais de metade, exactamente 51%, foram despendidos em publicidade estática, ou seja,, na colocação de outdoors durante um mês e meio, a que se deve juntar mais de cinco mil contos da produção dos cartazes”

Se o PP gastou mais de 50 mil contos em cartazes durante um mês e meio, calcule-se as verbas que foram gastas em situações como o referendo sobre a regionalização: “pela parte do PS, haverá cartazes grandes e pequenos, em todo o país, a apelar à união. Dos maiores (8×3m) serão distribuídos 400 e dos mais pequenos (2×1m) haverá mil. (…)O PSD prepara-se para renovar os cartazes contra a regionalização ao ritmo de um por mês. Assim, além do que vigora actualmente nos placares, haverá novas séries em Setembro e Outubro. De cada série não haverá mais do que 103 cartazes (8×3m), em todo o país, número correspondente às estruturas disponibilizadas pelo partido para a afixação. (…) O PCP arranca para o combate já no princípio de Setembro, (…) a novidade vai ser o lançamento do primeiro out-door. (…) Na fase final haverá mais cartazes com mensagens mais direccionadas.” JN, 23/08/1998
Segundo o que foi anunciado pelo então secretário-geral do PSD, António Capucho, dos cofres dos sociais-democratas saíram 50 mil contos para financiar a campanha do referendo.
Pouco tempo depois, nas eleições para o Parlamento Europeu, em 1999, segundo as contas apresentadas à Comissão Nacional de Eleições, o PS gastou 354 mil contos, o PSD 89 mil, a CDU 93 e o PP 22 mil contos. Ao todo, os 11 partidos concorrentes declararam mais de 570 mil contos de despesas.
Nas legislativas de 2005 o Expresso (06/02/05) fez um levantamento e concluiu que os principais partidos gastaram mais de um milhão de euros na campanha. Dos números que recolheu, em média, calculou o custo de um outdoor em «cerca de 300 euros para o PCP, à volta de 400 para o CDS, na casa dos 900 para o BE». Nesta reportagem era ainda referido que o PSD teve 750 “outddors”, o PS 664, o CDS 200, o PCP 130 e o BE 100.

Nas Legislativas de 2009, o custo das campanhas eleitorais om outdoors terá chegado a 23 milhões de euros
A Entidade de Contas do Tribunal Constitucional, nas autárquicas de 2005, estabeleceu um preço de referência de mil euros para cada cartaz de três metros de altura e quatro de largura.
Devido à legislação eleitoral, depois de marcada a data das eleições, os partidos não podem recorrer à publicidade comercial e têm de adquirir os suportes publicitários. É tendo em conta estes custos que só os grandes partidos podem recorrer aos outdoors. Por exemplo, segundo o mesmo artigo do Expresso, nas eleições legislativas de 1999 o PCP tencionava investir em apenas uma centena de outdoors espalhados por todo o país. O PCP/MRPP nem um único conseguiu: “privilegiámos o nosso símbolo. Não temos outdoors, mas tentámos fazer o possível com as verbas atribuídas pelos nossos militantes, escassos milhares de contos que tiveram de servir também para as Europeias.” – Público 04/010/99

Nas presidenciais de 2011, pra dar um sinal de contenção nos gastos da campanha eleitoral - o país confrotava-se com uma crise económica - Cavaco Silva prometeu na sua declaração de candidatura que não ia recorrer a outdoors.

Os cartazes têm um tempo de vida curto e devem ser retirados a tempo, essencialmente se ocorrer chuva e  vento Se os cartazes estiverem muito estragados ou com ar muito gasto, os efeitos podem ser negativos.

Noutras circunstâncias, a mensagem é adulterada, através de inscrições.

 

Marcelo Rebelo de Sousa foi uma vez vítima desta situação. Candidato à Câmara de Lisboa alguém o tentou confundir com uma empresa de venda de electrodomésticos chamada TV Marcelo.

 

Mais recentemente, um outro caso teve lugar nas legislativas de 2005, onde vários cartazes de José Sócrates foram sujeitos a várias inscrições, em muitos casos injuriosas. Nesta campanha eleitoral surgiu um outro caso que atingiu vários partidos. Essencialmente na região de Lisboa era frequente encontrar os candidatos com uma bola vermelha colada no nariz.

 

«Trata-se de um círculo cuidadosamente cortado e colado sobre o nariz dos candidatos. Não foi um gesto de raiva momentânea, foi uma acção concertada que deu uma nova cor aos cartazes do PSD, PS, CDS-PP e Bloco de Esquerda(…)Todos os partidos falaram em falta de civismo e estranham o facto de nenhuma força de segurança ter visto alguém colocar as bolas vermelhas, uma vez que se terá recorrido a uma escada.» SIC online;

A colocação de cartazes em edifícios públicos e privados também provocar reacções negativas. Além de poder violar a legislação. É proibida a afixação “em monumentos nacionais, edifícios religiosos, edifícios sede de órgãos de soberania, de regiões autónomas ou do poder local, nos sinais de trânsito ou placas de sinalização rodoviária, no interior de quaisquer repartições ou edifícios públicos ou franqueados ao público, incluindo os estabelecimentos comerciais.” (Art. 66º, n.º 4 da Lei n.º 14/79)
Mesmo nos locais onde é possível a afixação de cartazes, é preciso fazê-lo com moderação. Os exageros, que são habituais, acabam por ter efeitos contrários. Veja-se o caso do PSD de Águeda nas legislativas de 99: “Com a desculpa de que a campanha eleitoral «é uma festa», um grupo de militantes do PSD de Águeda meteu as mãos à obra e inundou literalmente uma das principais artérias da cidade com pendões e cartazes com a cara de Durão Barroso. O gesto caiu mal, não só entre a população, mas especialmente entre os outros partidos, que protestaram vivamente contra a iniciativa laranja.” – Público 28/09/99
É também proibida a utilização de placares comerciais, a partir da publicação do decreto que marca a data das eleições. (Art. 72º). Em contrapartida, as câmaras municipais e as juntas de freguesia devem estabelecer “espaços especiais em locais certos, destinados à fixação de cartazes, fotografias, jornais murais, manifestos e avisos.” (Art.66º). Nem sempre são decisões pacíficas e em quase todas as eleições há queixas na Comissão Nacional de Eleições.

publicado por rgomes às 18:06
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